O Motivo

Neste artigo falarei um pouco sobre o motivo, peça fundamental no estudo da fraseologia musical. Isso é fundamental para compositores, arranjadores, intérpretes, improvisadores e etc. 

 

Definição

Mas afinal, o que é o motivo?

Schoenberg diz “Qualquer sucessão rítmica de notas pode ser usada como um motivo básico…”. 

Prestem atenção que Schoenberg menciona dois elementos básicos que são: nota e ritmo. Podemos dizer que um motivo é a soma da ritmo + nota. No livro de harmonia da Maria Luisa Priolli ela diz que a célula (ritmo + nota) é o menor elemento da estrutura musical e que o motivo é constituído por duas ou mais células. Célula também pode ser chamado de figura, particularmente eu chamo de figura.

Virgínia Salgado Fiusa chama de inciso e não de motivo em seu livro Análise Musical. Entretanto, Virgínia cita alguns teóricos e apresenta as classificações da fraseologia musical de cada um deles.

 

Teóricos Classificação

 

Emile Durand (1830 -1903)

 

Inciso

 

Vicent d’Indy (1851 -1931)

 

Célula ou Inciso

 

Albert Bertelin (1872 – 1951)

 

Elementos

Mathis Lussy (1828–1910)

 

Inciso

 

Hugo Riemann (1849–1919)

 

Motivo

 

 

Hoje o termo motivo é o mais usado. 

 

Analisando o Motivo

 

David Cope diz “Motivos podem gerar um grande material melódico significante e portanto revela ser eficaz quando se compõe uma melodia.”

Vamos ouvir Olha Maria do Tom Jobim. 

 

A melodia principal é construída em cima de um único motivo:

Tomjobim

 

A partir desse ritmo o Tom Jobim construiu suas frases. Belo exemplo de economia na construção melódica, mas a harmonia é o elemento chave para evitar a monotonia.

O Minueto de Mozart possui duas figuras, a soma das duas gera o motivo. 

Mozart Minuet

O acompanhamento não fica de fora. Existe o motivo do acompanhamento. Ouça novamente prestando atenção no acompanhamento do piano da música do Tom Jobim.

Impossível não mencionar a 5ª sinfonia do Beethoven quando o assunto é motivo. Ouça o vídeo com a partitura reduzida pra piano.

 

Saber ser econômico e ao mesmo tempo não deixar a música monótona é a grande dificuldade do compositor. Beethoven explorou bastante do motivo nessa seção A. A melodia é tocada inteiramente pelo o naipe das cordas com as madeiras fazendo a harmonia e dobrando alguns trechos quando necessita de algo mais forte (os metais entram nessa também). A pergunta que devemos fazer é: como fazer algo repetitivo não soar entedioso? A resposta a gente acha analisando os grandes mestres. Nada melhor que essa 5ª sinfonia, vamos analisar como Beethoven tratou esse famoso motivo.

Como eu disse anteriormente, a melodia da seção A está no naipe das cordas. Uma das maneiras de contrastar a melodia em um naipe homogêneo como o naipe das cordas é usar o recurso da oitava. Logo no início, Beethoven apresenta o motivo em uma pequena introdução.

beethoven 01

Agora é que vem a parte interessante, olhe a partitura do vídeo e veja como ele distribuiu o motivo para orquestra de cordas.

 

beethoven 02

 

Parece algo simples, e é. Essa simplicidade faz toda uma diferença quando se está assistindo a orquestra. Por gravação é mais complicado, mas ao vivo é totalmente perceptível essa nuance. 

Logo em seguida, a melodia vai do agudo para o grave. Apesar do mesmo timbre (timbre das cordas), a mudança de oitava é contrastante. 

beethoven 03

 

Na seção B, Beethoven não abre mão do motivo da seção A. Apesar da nova melodia, ou seja, um novo motivo (motivo da seção B), ele usa o motivo da seção A no cello e baixo junto com o motivo da seção B. Ao mesmo tempo que ele introduz um novo elemento, ele deixa o “velho” elemento como plano de fundo como se ele quisesse dizer para os ouvintes “eu ainda estou aqui”. 

beethoven 004

 

Depois ouça com a partitura (que é facilmente achada no imslp) a parte do desenvolvimento. Ali sim tem um grande trabalho de variação melódica e harmônica. 

 

Conclusão

 

Muitas pessoas acham que compor envolve 100% inspiração, mas não é verdade. Quando estudamos composição a gente começa a perceber que tem muito mais técnica que inspiração. A inspiração não bate todo dia, mas quando bate devemos aproveitá-la ao máximo, mesmo que seja alguns compassos. E quando a inspiração acaba? Deixamos o trabalho de lado e espera a inspiração voltar? Isso é um luxo que poucos compositores possuem, pois o prazo é a inspiração. É por isso que é de fundamental importância o estudo da análise musical.

  

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Até a próxima!

6 de fevereiro de 2019

2 respostas em "O Motivo"

  1. muito bom, obrigado!!

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